1. Voltando para casa depois de 5 anos fora: choque cultural reverso (a verdade honesta)

Por que voltar para casa depois de morar fora foi mais difícil do que partir, e o que ninguém conta sobre o choque cultural reverso.

By: Sthephane

10/14/20267 min ler

Escrito durante os meus primeiros meses de volta ao Brasil. Foi assim que me senti na época, e muita coisa mudou desde então.

Três semanas depois de eu voltar para casa, no Brasil, me peguei pensando em algo que eu tinha medo de dizer em voz alta.
E se viver na minha bolha lá fora fosse melhor?
E logo depois desse pensamento veio a culpa. Porque este é o meu país. A minha família. A minha língua. A minha cultura. Como é que eu não estou mais feliz aqui?
Não estou aqui para reclamar, e não estou aqui para comparar países. Estou aqui para ser honesta sobre o choque cultural reverso, algo para o qual ninguém me preparou.
Sair foi uma aventura. Voltar é uma crise de identidade.

O que é choque cultural reverso?
O Escritório de Estudantes e Acadêmicos Internacionais de Yale descreve o que vem depois de voltar para casa após morar no exterior como: “um período de adaptação, conhecido como choque de reentrada ou choque cultural reverso”, tradução minha).

Fonte: Yale Office of International Students and Scholars, “Returning Home.” Accessed October 28, 2026.

Por que eu voltei depois de 5 anos fora?
Depois de cinco anos morando fora, eu estava cansada. Cansada de recomeçar. Eu não aguentava mais fazer a minha única mala grande e me mudar de novo. Afinal, morar fora exigia isso. Meu relacionamento tinha acabado. Ele era a minha “família”. Meu visto estava acabando, e ter um sponsor para morar em uma área remota por anos não era uma opção para mim. Eu sempre priorizei a minha independência. E se voltar para casa fosse a melhor escolha, na hora certa? Pela primeira vez, ficar longe da minha família doeu de verdade. Todas as minhas amigas brasileiras sofrem por estar longe da família, então por que eu estava bem com isso? Talvez eu estivesse fugindo de alguma coisa, e senti que era hora de voltar.
Alguém que eu amo estava muito doente e, infelizmente, eu não cheguei a tempo de me despedir e agradecer por me criar e sempre fazer o melhor pela nossa família. Também percebi que eu estava ficando velha e me sentindo sozinha. Eu tinha acabado de perder a minha única “família”. Eu sentia que não tinha conquistado nada. Sentia que não tinha uma carreira e que não tinha nada a perder.
Então aceitei algo que eu evitava há anos: eu era vulnerável e queria estar perto das pessoas que amo. Voltei com empolgação, saudade, medo e muita determinação. Eu tinha tudo planejado e pronto para ser executado.

A fase de lua de mel da volta para casa
As primeiras semanas foram incríveis. Comida de verdade, real food, como a gente fala no Brasil. Eu podia falar a minha própria língua sem traduzir na cabeça, e podia me expressar por completo e ser entendida sem nenhum esforço, com o meu sotaque regional fofo.

Pessoas eram calorosas e carinhosas. Elas realmente te abraçam, te tocam, se importam. Eu podia ser eu mesma naturalmente, e “ficar no abraço”, sem medo de ser julgada ou de criar tensão. Eu tinha esquecido como isso era especial, e talvez fosse tudo de que eu precisava naquele momento. Cuidei da minha saúde: as melhores academias, comida boa. Tantas consultas médicas. Eu nem sabia que existia ultrassom de axila. Eu estava ocupada, vivendo um clima de lua de mel.
Com os meus dólares, me senti rica por alguns dias. Eu podia comprar coisas que nunca tinha conseguido pagar na vida. Pensei: é isso. Estou em casa. E me senti muito bem recebida.

A mudança: quando a gratidão começou a parecer estranha
Então, aos poucos, a gratidão começou a parecer estranha.
Eu me sentia privilegiada, e não sou rica. Não me sintia no direito de ser feliz quando tem gente passando fome. Comecei a enxergar a distância entre ricos e pobres, e coisas que eu via como normais. Crianças vendendo coisas e pedindo dinheiro na rua. Tantas famílias vivendo nas ruas. E como nós, como sociedade, nos acostumamos com isso? Era impossível ignorar, e isso machucou as minhas raízes. Afetou a verdadeira eu que sempre esteve ali. Doeu de um jeito que eu não esperava, e me lembrou por que eu fui embora. Tive uma sensação estranha, como se eu pensasse: “não quero pertencer a este lugar, é difícil demais de lidar”.
Mas não era só o país. Era eu.
Eu sofria com os atrasos em tudo e com as pessoas que não cumprem a palavra em coisas básicas. Eu não me sentia segura. Eu escondia o celular, tinha medo de pegar transporte público, e também tinha medo de Uber. As perguntas pareciam pessoais demais vindas de gente que eu mal conheço. Por que o meu peso importa? Por que você quer saber por que o meu relacionamento não deu certo? E por que eu deixei isso me afetar? Coisas que eu costumava ignorar agora me incomodavam.
E aí, os jantares em família. Eu amo a minha família. Mas, sentada naquela mesa, eu me sentia deslocada. Ouvi essa frase em algum lugar: “Eu me sinto uma convidada especial em um reality show.” É difícil. “O que você vai fazer agora?” “E agora, qual é o próximo passo?” Eu me sentia pressionada.
Cheguei a me pegar pensando: era mais fácil quando a gente estava longe? Eu não tinha tudo isso antes. Eu não estava enfrentando tantos problemas.

A culpa de me sentir diferente
E então veio a culpa. Eu me senti uma traidora.
Eu sempre achei que era leal à minha cultura. E agora eu me perguntava: quem eu me tornei?
Sei que não sou melhor do que ninguém aqui. Não estou dizendo isso. Tenho medo de ser julgada. Para ser sincera, eu só mudei. Meus hábitos mudaram. Não consigo mais gostar das mesmas comidas. O jeito como eu vejo as coisas mudou. É isso que o choque cultural reverso parece para mim. As minhas amizades não conectam como antes, e eu não sei onde colocar isso. Evitei uma amizade antiga porque eu não aguentava mais as conversas rasas. Eu queria que o reality show acabasse, e não tive coragem de dizer isso, ou não sabia como dizer. Acho que não existe um jeito de fazer isso. Então simplesmente ignorar foi a coisa mais fácil que consegui fazer, mesmo me sentindo muito mal por isso.

As perguntas difíceis que eu tinha medo de fazer
Esta é a parte que eu mais tenho medo de dizer.
Tenho vergonha de admitir que viver na minha bolha lá fora era melhor. Mais fácil. Mesmo comparando as partes negativas, ainda era muito mais fácil e melhor lá fora. E agora eu me pergunto: isso é real, ou estou fugindo? Os dramas da minha família são demais? Sei que não posso mudar a realidade, então tudo bem procurar uma fuga (soa tão egoísta e duro dizer isso). Criar uma nova bolha é só um jeito de evitar encarar tudo? Eu reclamava lá fora. Agora reclamo aqui. Será que o problema sou eu? Tenho medo de estar reclamando só porque estou infeliz comigo mesma, e não por causa do Brasil. Às vezes sinto que sempre vou achar um motivo para reclamar, e me sinto culpada por não ser mais grata pelo que tenho.
E o medo por trás de tudo isso é este: e se eu nunca mais me adaptar aqui? E se ficar mais difícil a cada dia? E se a vontade de ir embora for real, e não só uma fase?
Não tenho a resposta. Eu me adaptei tão rápido a uma nova língua, uma nova cultura, um novo clima, até a dirigir do outro lado da rua. Até hoje estou tentando entender como funcionam as rotatórias. E agora voltar para casa é mais difícil do que tudo isso. Talvez seja porque, quando eu fui embora, esperava que fosse difícil. Quando voltei para casa, esperava que fosse fácil. Talvez, no fundo, eu queria que isso me salvasse da minha solidão. Ninguém me avisou que eu voltaria como outra pessoa para um lugar que continuou andando sem mim.

Onde estou agora: em algum lugar no meio
Neste momento, não estou de férias e não estou em casa. Estou em algum lugar no meio, mas não consigo descansar nem enxergar um futuro aqui.
Achei que conseguiria pagar um apartamento aqui, mas esqueci como as coisas são caras, mesmo com dólares. Não quero gastar minha poupança. Talvez, com a minha fluência em três idiomas, eu consiga um bom emprego, um que pague mais de 400 dólares por mês. E se eu investir aqui? Comecei um curso on-line e espero que ele me ajude.
Tem dias eu quero ir embora. Tenho medo de renovar a mensalidade por mais um mês. Eu deveria parar de procurar passagens e vistos.
Alguns dias eu sou grata por estar aqui. Meu sobrinho me chamando de “Tia Sthe” me dá vontade de ficar aqui para sempre.
As duas coisas são verdade, e estou tentando parar de me obrigar a escolher. Deixa estar.
O que está me ajudando: manter bons hábitos, pintar, ir à academia 6 vezes por semana, e também comecei o pilates. Eu não sabia que era tão difícil, mas já estou obcecada. Escrevo no meu diário e converso com a minha psicóloga duas vezes por mês. É difícil encontrar alguém que realmente entenda isso. Acho que ela não entende de verdade. Mas o mais importante é escrever sobre isso e ser aberta, como estou fazendo agora.

Ainda não tenho uma resposta. Talvez pertencer não seja um lugar para onde se volta. Talvez seja algo que a gente constrói de novo, aos poucos, como outra pessoa.

Se você também está sentindo isso
Você não é ingrata. Você está no meio.
Você já se sentiu como uma estranha em um lugar que conhece de cor?

Sunset above the clouds seen from an airplane window
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