2. Estrangeira nos dois lugares | A dura verdade sobre voltar para casa
Imigrante lá fora, estrangeira em casa: como é não pertencer por completo a nenhum lugar.
PERTENCIMENTO
Toda vez que volto ao Brasil, a sensação é diferente da de qualquer um dos outros 15 países que já visitei. Mas voltar ao Brasil com o plano de ficar para sempre trouxe uma sensação diferente.
Visitei a Opera House pela primeira vez em três anos. Tentei me “despedir” e aproveitar o país que se tornou a minha casa, a Austrália. E isso me fez perceber que eu era estrangeira lá também. O limite do pertencimento ficou tão claro, e doeu. É assim que é ser estrangeira nos dois lugares.
Sempre imigrante: a minha vida lá fora
Fora do Brasil, eu sempre fui imigrante. Nunca me senti 100% pertencente, mesmo abraçando a cultura e me adaptando. Isso sempre foi muito claro para mim. Me adaptar a um sotaque completamente diferente e difícil me lembrava disso. Morar em grandes capitais e conhecer mais imigrantes me fazia sentir mais brasileira.
Depois me mudei para uma pequena comunidade remota, com poucos imigrantes e a maioria “australianos”. Confesso que essa imersão deixou a minha identidade um pouco de lado. Eu falava inglês na maior parte do tempo. Até me acostumei a comer “lanches” no almoço. Cadê o meu arroz com feijão? Aos poucos, os meus hábitos e o meu jeito de ver as coisas mudaram. Eu já trabalhava 100% em inglês e tinha dificuldade de explicar as coisas em português. Havia palavras que eu só tinha aprendido no contexto australiano, e eram difíceis de traduzir sem eu parecer perdida na minha própria língua.
Tentar pertencer me ajudaria muito. Eu deixei a minha cultura de lado, às vezes tinha vergonha do meu sotaque, e achava que abraçar algo diferente poderia preencher a falta de comunidade que eu tanto queria.
Tentei me encaixar, de pequenas formas. Tentei gostar de pescar, mas não consegui. Passar manteiga numa fatia de bolo e grelhar demorou um tempo para eu gostar, e hoje eu amo banana bread (uma coisa típica da Austrália). Fiquei viciada em sausage rolls, os caseiros, claro. Aprendi gírias novas. Mas algumas coisas me lembravam de que eu não era de lá, como não ter acesso ao sistema de saúde e viver sempre preocupada com o meu visto e com o meu tempo lá.
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Morar em uma pequena comunidade indígena, onde todo mundo se conhecia, me fez sentir um pouco em casa. Criei uma conexão que nunca vou esquecer. Infelizmente, não consegui me sentir completamente em casa, porque eles tinham a própria língua, e a cultura deles era muito forte e diferente.
A despedida: deixar um lugar chamado casa
Um mês antes, comecei a me preparar, e tive que doar metade das minhas roupas. Então percebi que me restavam só algumas semanas. Ok, calma, eu entendi.
A despedida foi triste, e no final senti que fui um pouco cruel comigo. Fui embora no meu aniversário. Fiz uma festinha de aniversário com as pessoas que eu amo. Até fiz bolo e brigadeiro. Foi muito triste me despedir. Eu sabia que essa despedida não tinha volta: uma despedida de pessoas, de lugares, do meu porto seguro, do meu trabalho e até dos animais. Eu era voluntária ajudando animais resgatados, e ainda sinto saudade deles hoje. Eu nem consegui ler os cartões e as mensagens. Chorei muito, e doeu de verdade.
Me confortou que as pessoas me desejassem sorte e sucesso. As pessoas com quem eu trabalhava me apoiaram muito. Elas me incentivaram, porque eu sabia o que estava fazendo e estava fazendo isso pelos motivos certos.
Sinto que deixei um pedaço do meu coração lá, e uma versão de mim que não sei se algum dia vai voltar. Uma versão de que eu sinto falta: a calma, a paz, o mercadinho, ou só “shops”, como eles gostam de dizer. Uma versão mais simples de mim ficou lá, e isso foi estranho.
Os últimos dias foram bons, uma mistura de sentimentos. Ser turista na Austrália era novo e diferente. E tudo bem, porque, afinal, eu estava indo para casa, animada, cheia de sonhos. Para ser sincera, isso me fez renegar um pouco a Austrália. Pensei: “Sou grata, obrigada, mas eu tenho o meu país para onde voltar.”
Mas essa sensação durou só alguns dias.
Estrangeira em casa: quando o seu próprio país parece estranho
Voltar para “casa” foi um contraste com tudo o que eu tinha vivido nos últimos três anos. Não era uma visita temporária. Eu tinha voltado de vez, e essa era a minha nova realidade, mesmo que parecesse estranha. Sentir-se estrangeira em casa é uma sensação horrível, e eu só queria apagá-la. Eu não queria encarar isso.
A volta foi um choque, e eu me senti deslocada. A persistência me mantinha em pé. Mas algumas coisas parecem não se encaixar mais. Coisas muito próprias da minha cultura ficaram estranhas, e as pessoas me chamando de “gringa” não ajudavam. Isso me incomoda porque parece que eu abandonei a minha cultura, e sei que também não pertenço àquela outra.
Me incomodava quando as pessoas me chamavam de australiana. “Não, eu sou 100% brasileira.” E, para evitar mais perguntas, eu só dizia que estava de férias no Brasil. Mas isso era pior, porque aí vinham as perguntas sobre a minha antiga eu, o meu trabalho, tudo, e era difícil lidar com isso. Ter boas lembranças quando você não está 100% feliz faz você rejeitar o presente e querer o que era familiar. Acho que foi isso que aconteceu.
Eu sentia que só era interessante porque tinha morado fora. Sem isso, eu seria só uma “pessoa comum”, como todo mundo ao meu redor. E eu me forcei a ser comum, eu tentei. Evitava falar sobre a vida no exterior. E se eu criasse uma personagem? Na verdade, eu queria me sentir comum e sair da crise de identidade.
Outro dia, no pilates, conheci uma menina que tinha morado nos Estados Unidos por anos. Tínhamos tanta coisa em comum, e por um momento foi como se só nós duas estivéssemos na sala. E aí veio a bad. Parece que eu não tinha nada para falar sobre o Brasil, ou não sabia mais como me conectar com as pessoas. Também foi difícil para mim ouvir as pessoas reclamando ou só falando de tudo o que é ruim no Brasil. Isso criou tanta confusão mental, e virou o meu problema número um para resolver.
Confusão e arrependimento depois de voltar para casa
Muitas vezes, me arrependo de ter voltado. E se eu tivesse ficado anos em um lugar remoto, longe de tudo, só para conseguir um sponsor? Mas aí eu lembrava dos motivos pelos quais fui embora, e isso me confortava. Sei que fiz o melhor que pude naquele momento, e me apegar a isso me deixou mais gentil comigo mesma. Eu fico repetindo: não preciso decidir nada agora, e talvez essa confusão me guie até o meu potencial.
O que sentir-se estrangeira está me ensinando
Talvez este momento me mostre que existem camadas em tudo, e que nem tudo é tão negativo. Talvez compartilhar a minha experiência possa ajudar pessoas que querem viajar. Falar de coisas aleatórias da Austrália pode ser uma conversa interessante. Eu poderia contar as coisas estranhas de lá, mesmo quando eu estava cansada de responder perguntas sobre cangurus, detalhe é que, em três anos, só vi um canguru de perto uma vez.
A dificuldade de me adaptar está me ensinando coisas mais profundas sobre mim mesma. Com certeza ela abriu caminhos para mim. Não quero soar como positividade tóxica, mas, nos meus momentos mais desafiadores, eu sempre aprendi alguma coisa. Até certo ponto, lidar com o desconforto e com alguma confusão me move em direção a algo melhor. Até as reclamações que ouço sobre insegurança, corrupção e o preço das coisas podem ser algo positivo, porque podem abrir a porta para uma conversa saudável. Infelizmente, o meu país é muito dividido entre direita x esquerda, e isso acrescenta um peso extra ao que estou sentindo agora. Eu não via isso de forma tão aberta na Austrália.
Sentir-me estranha e insegura para criar conexões me mostra que talvez eu tenha me desenvolvido culturalmente em coisas que antes eram normais para mim. Ser flexível para aprender e contribuir, sem apressar nada, é a melhor decisão. Sentir-se estrangeira em casa pode ser só um sentimento temporário.
Se você se sente estrangeira nos dois lugares também
Você não está sozinha. Você já se sentiu assim?











