3. Apliquei para o visto mesmo assim: por que parei de apostar toda a minha vida no Plano A

Por que eu apliquei mesmo sem ter certeza, e o que aprendi sobre deixar o Plano A pra lá.

PERTENCIMENTO

By: Sthephane

10/19/20267 min ler

Escolher a mim mesma sem fugir
Eu me esforcei ao máximo para ficar no Brazil e me acostumar, mas, com o tempo, na minha jornada de autoconhecimento, aprendi a me ouvir, a ser mais gentil comigo mesma e a ouvir a minha intuição. Por que me forçar a algo que me deixava infeliz, que me fazia sentir que eu estava afundando e perdendo o meu brilho de novo? Isso não quer dizer evitar o desconforto e fugir na primeira oportunidade. Essa é uma das coisas em que mais tenho trabalhado e me esforçado ultimamente. Mas existe uma linha muito tênue entre lidar com o desconforto e viver uma vida miserável, me forçando a me encaixar em algo que não era bom para mim. Escolher a mim mesma sempre será a escolha certa e mais madura para mim, mesmo quando ainda é difícil de fazer.

Por que eu apliquei para o visto mesmo assim
Para ser sincera, acho que os meus problemas familiares, a dificuldade de me adaptar de novo, o peso de um relacionamento à distância e a saudade da minha bolha de conforto, com os meus amigos e a vida a que eu estava acostumada, me fizeram tentar voltar. Mesmo sabendo dos riscos de aplicar para um novo visto, e de que muito provavelmente ele seria negado, dado o meu perfil, a minha situação atual e as novas mudanças na imigração, eu quis tentar. Eu sentia falta da Austrália, não hesitei e apliquei.

Seis semanas esperando um e-mail
Foram quase 6 semanas de espera, olhando o meu e-mail todos os dias, muitas vezes ao dia, ativando as notificações e até olhando em horários em que eu sabia que seria madrugada na Austrália. Eu estava sendo besta, ou ainda tinha 1% de esperança lá no fundo? Na verdade, a esperança ia morrendo a cada semana e, coincidência ou não, saíam cada vez mais notícias e mudanças nas leis de imigração. O meu algoritmo só me mostrava isso: tantas histórias tristes, famílias se separando, sonhos sendo destruídos, uma sensação de pânico em muita gente que tinha, ou tem, a Austrália como única opção. Eu fiquei obcecada pelas histórias das pessoas.
Acho que nós, humanos, temos a tendência de focar no negativo, e infelizmente isso estava me consumindo. Eu sempre me perguntava: “Estou sendo negativa ou realista?” Não tenho dúvida de que, quanto mais eu olhava a realidade, mais me arrependia de ter aplicado, de perder dinheiro e de me colocar em uma situação de esperança e frustração, porque eu sabia que o visto seria negado. Mas a esperança é a última que morre. Ou, como a gente fala no Brasil, brasileiro não desiste nunca. E eu sempre fui muito persistente.

Recalculando a rota: vivendo o plano B
Decidi recalcular a rota e, talvez para me proteger da frustração ou de mais incerteza, pensei em um plano B. E se eu tentasse algo diferente? E se eu quisesse tomar uma decisão diferente? Sei que nada se compara à Austrália (principalmente deixar as pessoas que amo lá), mas aprendi que a minha felicidade não deve depender de algo externo. Sei que posso fazer dar certo em outro lugar, mesmo que isso signifique recomeçar tudo do zero.
Então me concentrei no plano B e vivi isso intensamente nas últimas 2 semanas. Virou o meu hiperfoco e uma fuga do meu próprio medo de encarar uma negativa. Colocando em palavras, soa até muito tóxico, mas foi o melhor que consegui fazer para me ajudar naquele momento.
Tive coragem de contar o meu plano às pessoas mais próximas, sem medo de julgamento ou de que a opinião dos outros me fizesse desistir de arriscar algo novo. Eu via a frustração no rosto delas, ou será que era só a minha interpretação? Eu ficava repetindo para mim mesma: “Eu já sei que o plano A não vai dar certo, estou vivendo o plano B.” Então, se o plano A der certo, ótimo, mas aceitar isso e me libertar da ideia de que a minha vida estava nas mãos de uma única possibilidade foi o que me ajudou e me libertou de verdade. Se o plano A não der certo, tudo bem, eu já aceitei. Mas será que isso é verdade mesmo? Eu continuava esperando o e-mail, com menos intensidade e ansiedade, mas, no fundo, ainda precisava da resposta para me libertar por completo, e talvez isso nem seja sobre um visto.

Quando uma oportunidade vira tudo
Quantas vezes nos pegamos em um hiperfoco, apostando todas as fichas em uma única oportunidade? Seja um relacionamento, um emprego, um país, os estudos... Acho que isso me ensinou e me provou, da melhor forma, que o mundo é literalmente muito grande. Eu nem nasci na Austrália. Eu tinha uma vida inteira antes de lá. Então por que isso é tão importante e especial? Como assim essa é a minha única oportunidade na vida? Existem tantas chances na vida e, sinceramente, sair da minha zona de conforto me puxou de volta de um precipício de medo, insegurança e falta de fé em mim mesma. Na verdade, tudo mudou. Cadê a minha determinação e a minha confiança?

Lembrando de tudo o que eu já enfrentei
Já passei por situações muito mais difíceis. Cresci em um “país de terceiro mundo” (é assim que nos chamam), um país onde as oportunidades são muito mais difíceis e injustas, onde a meritocracia é muito questionável, um país onde estudar mais de 7 anos para fazer uma graduação e um mestrado não me ajudou a ter uma vida digna. Eu já tinha me mudado para um país completamente diferente, sem inglês, sem experiência, só com 500 dólares e um sonho. Perdi a minha avó recentemente. O que é um visto perto de tudo o que eu já enfrentei e conquistei na vida? Eu cresci muito em 5 anos e não vou deixar esse medo atrapalhar o meu caminho.
Do que eu tenho medo? Demorei um tempo para encontrar uma resposta honesta. Quando a gente perde o contato consigo mesma, existem situações que nos forçam a manter o nosso equilíbrio e a nossa lealdade a nós mesmas. E foi isso que aconteceu comigo. Qualquer que fosse a resposta, eu me confortava, lembrava dos momentos mais difíceis e piores, e de que no final tudo deu certo. Qual é o pior cenário possível? Eu realmente o imaginei e soube que, não importa o que acontecesse, eu daria um jeito e encontraria uma solução. “Tudo tem jeito, menos a morte”, é o que as pessoas dizem no Brasil, e às vezes acabamos sendo os nossos maiores inimigos. Para quase tudo existe solução. Não parece certo sofrer tanto por isso quando sei que existem pessoas em situações muito piores do que a minha. Muita gente no Brasil ainda luta para ter o básico para comer.

O e-mail que eu já sabia que viria
Então, finalmente, recebi o tão esperado e-mail, sofrendo com um jet lag de 11 horas, ainda exausta depois de 5 voos e tentando ter uma noite de sono normal. Era madrugada quando li algo que partiu o meu coração: Visto negado. No fundo eu já sabia, mas doeu ler. Não consegui segurar as lágrimas, e tudo bem chorar e sentir certas emoções. Um filme passou na minha cabeça.

Meu parceiro me abraçou e disse que ia ficar tudo bem, mas, no fundo, eu sabia como isso afetaria o nosso relacionamento a longo prazo. Espero de verdade que a gente consiga lidar com isso. Foi o fim de todas as esperanças, o luto por um país que nunca foi meu. Dói saber que eu não vou estar lá por pelo menos os próximos 3 anos, sem ver os meus amigos, a família do meu parceiro, que não pode viajar, lugares aos quais me apeguei emocionalmente e até as coisas de que eu costumava reclamar. Eu repeti muitas vezes: “A Austrália acabou para mim.” Não há esperança a curto prazo. Com as novas mudanças de prazo e de custo do visto, não vejo nenhuma possibilidade. Não quero contestar a decisão, que, sinceramente, acho justa, não quero pensar em um plano B para a Austrália e não quero forçar algo que está fora do meu controle. Deixar ir é a coisa certa a fazer no momento. É a coisa mais gentil que posso fazer por mim, chega de esperanças.

Sentindo que não pertenço a lugar nenhum
Ter um visto negado me afeta em outras aplicações de visto, e a parte mais dolorosa foi a justificativa:
“Considero que as informações fornecidas não são suficientes para me convencer da sua intenção genuína de permanência temporária, e você não demonstrou ter compromissos suficientemente fortes no Brasil que sejam um incentivo para você retornar a esse país”,  - a carta de decisão do visto que recebi.
Isso expôs um sentimento que mais tem me machucado ultimamente: eu não tenho laços com o meu país e talvez eu não pertença a lugar nenhum. Sinceramente, me sinto sem casa. É por isso que eles acham que eu não iria embora, sou um perfil “suspeito”.

O plano B já estava acontecendo
Felizmente, essa notícia chegou quando eu já tinha me mudado de país e estava, de fato, vivendo o meu plano B. Doeu, mas não afetou os meus sonhos. Estou feliz onde estou e por ter tomado a decisão certa para mim. Aceitar o que não podemos controlar e acreditar em nós mesmas é a chave para o equilíbrio e uma vida feliz.
Reconheço os meus privilégios em comparação com pessoas que estão em situações mais difíceis do que a minha, pessoas que são excluídas do resto do mundo só por causa do passaporte que elas tem e que teriam mais dificuldade de “recalcular a rota” como eu fiz. Mas, mesmo assim, acho que às vezes perdemos oportunidades quando consideramos só uma possibilidade. De novo: o mundo é grande, e não temos controle sobre nada. Hoje eu olho para outros países que eu nem tinha considerado e estou me arriscando em algo novo e diferente da minha bolha. É empolgante. A insegurança e o medo às vezes aparecem, mas eu não deixo que tomem conta. Eu sempre volto para mim mesma com a certeza de que tudo vai ficar bem.


Você já colocou todas as suas esperanças em um único plano?
Esta é a minha experiência pessoal, não é aconselhamento de imigração.

Woman looking through binoculars from a boat, searching the horizon
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