4. O que casa realmente significa | Quando você não tem um endereço

Como a minha ideia de casa mudou depois de anos me mudando, e o que casa significa quando você não tem um endereço fixo.

PERTENCIMENTO

By: Sthephane

10/23/20267 min ler

Escrito nas minhas primeiras semanas em um novo país. É assim que me sinto agora, e isso pode mudar.

Sempre que alguém me pergunta onde eu moro, mil respostas passam pela minha cabeça. Depende. No Brasil, era fácil responder, mesmo com toda a confusão mental e incerteza. No país onde estou agora, ainda tenho resistência em não dizer que moro na Austrália (sim, já faz 3 meses, e largar a “ideia” ainda me pega às vezes). Para as pessoas próximas, digo que estou morando aqui temporariamente. Para estranhos, digo só Austrália, para evitar mais perguntas. Mas, no fundo, é confuso, até para mim. Neste momento, estou preenchendo vários formulários aleatórios que pedem um endereço, e eu realmente não sei o que colocar. Me sinto totalmente deslocada, como se estivesse em umas “férias prolongadas”.
Esta é a última nota deste capítulo, depois de escrever sobre voltar para casa e sentir-se estrangeira nos dois lugares. Então, o que casa realmente significa?

O endereço que eu não tenho
Como contei na minha última nota, o meu visto foi negado, e entendi que realmente era o fim.
Desde então, passei 2 meses pensando se cancelaria o meu número australiano. Eu não queria continuar pagando um plano. Tentei mudar para pré-pago, mas pareceu mais complicado do que a minha paciência. Depois que entendi que eu não ia voltar para a Austrália, percebi que nem precisava mais manter o meu número. Decidi cancelar os meus pontos da Qantas (milhas) e, provavelmente, em breve, o meu American Express. Eu não precisava mais me preocupar com a ATO e com todos os aplicativos do governo. Eu manteria só o meu banco, se não tivesse taxa, claro.
Eu não ia morar nem trabalhar no Brasil, e não ia ficar aqui por muito tempo, então eu não sabia em qual país deveria pegar um novo número. Essa decisão simples me causou muito estresse. Eu não aguentava mais os e-mails da Telstra dizendo que a minha linha seria cancelada a qualquer momento.
Então, onde era a minha casa? Mas o que casa realmente significa? Depende.

O que casa significava antes
Depende da minha nova ideia de casa, da minha ideia antiga ou do que a sociedade diz que ela é. Antes de eu começar a viajar, casa era sempre onde o meu coração estaria: família, conforto, as mesmas comidas, as mesmas pessoas e o mesmo sotaque, nada “diferente”, até visões de mundo parecidas.
Casa era onde eu podia ter um guarda-roupa grande e não me preocupar em reduzir tudo para viver com só 1 mala. O meu endereço fixo. Onde eu tinha espaço “ilimitado” para coisas de valor emocional: caixas, presentes. Hoje, isso virou só uma pastinha com os meus cartões favoritos, a minha certidão de nascimento, o meu diploma e outros documentos importantes. Casa era a minha base, e tudo devia ficar por perto: escola, trabalho, amigos...

Como isso mudou
Isso começou a mudar quando me mudei para outro estado por 5 anos para fazer faculdade. Tudo era diferente, e foi um pequeno choque. Eu virei “a de sotaque diferente”, as minhas gírias eram engraçadas, e logo me adaptei ao novo lugar.
Depois de 5 anos “adaptada”, me mudei de novo por cerca de 6 meses, na época das máscaras. Mais uma adaptação rápida, e eu estava ficando cada vez mais longe da minha “primeira casa”. Então veio a minha primeira viagem internacional, e eu quis ainda mais explorar o mundo. México, mais 6 meses. Foi o mais “diferente” até então: uma nova língua, comida apimentada (até no café da manhã) e tantos americanos, o que deixava tudo ainda mais diferente. Fiquei interessada em como eles celebram o Dia de finados. Mas foi tão bom.
Depois, a Colômbia. Passei por um momento difícil lá. Na primeira semana, eu quis ir embora, mas, depois de um tempo, encontrei a minha paz. Eu amei Cartagena. Medellín me lembrava muito o Brasil. Depois voltei ao Brasil, só para visitar a minha família, e aí o Reino Unido.
A Inglaterra foi, de longe, a adaptação mais desconfortável: o clima, o inglês, a comida, as pessoas, um guarda-roupa novo (um estilo de roupa diferente, por causa do frio). Londres é tão grande que eu me sentia um pedaço de nada. Vi neve pela primeira vez. Foi difícil, por um longo período. Morei com outros imigrantes, brasileiros, a minha melhor amiga, e aquela “casa” virou onde o meu coração estava, mesmo dividindo um quarto com 12 pessoas. Mas lá eu tinha um endereço. Cada país me mostrava que eu tinha muito mais para explorar. Acho que cada experiência me afastou da minha primeira “base” e eu nem percebi. Eu não queria voltar para “casa”, mas sabia que não ficaria em Londres por muito tempo.

Austrália
Depois veio a Austrália, 3 anos. Foi o período em que eu mais aprendi, amadureci, aprendi o que é o amor e consegui ficar no mesmo emprego por mais de 3 meses. Criei a minha nova “base”, e morar em uma pequena comunidade trouxe uma boa sensação de pertencimento (à comunidade, não ao país). Consegui ter 2 malas, fazer planos e sonhar. Cheguei a pensar que me casaria lá.
Lembro de quando fui ao Vietnã por 2 semanas e voltei para a Austrália. Isso me trouxe um momento enorme de felicidade. Eu me senti em casa, ou no que casa tinha se tornado para mim. Isso me fez perceber que “casa” é um termo subjetivo que flutua. Ter uma rotina com as mesmas pessoas, o mesmo lugar, o mesmo trabalho e me acostumar com isso era o que casa significava para mim, e talvez um endereço fixo fosse só a cereja do bolo.

O que casa significa agora
Com certeza estou cansada de viajar e me mudar o tempo todo, mas não tenho muita escolha, ou simplesmente eu não aguentaria a opção mais óbvia (ficar na minha cidade natal). Neste momento, casa é ter um lugar para ficar por mais de 1 mês, poder colocar todos os meus produtos de higiene na prateleira do banheiro e poder desfazer a minha única mala, lá vamos nós de novo. É ter a minha rotina, fazer novas amizades e amizades de longas. Estou cansada de me conectar com pessoas que logo vão embora, e talvez isso me faça fechar um pouco, porque sei que logo também vou embora. Mesmo vivendo uma fase de transição, me sinto mais confortável agora. Posso renovar a minha mensalidade sem medo, e estou construindo todos os dias aquilo que me acolhe.
Nos nossos primeiros dates, o meu parceiro me deu um canguru vestido de Papai Noel. Guardo as cartas da minha irmã e as fotos dos meus sobrinhos. Quando saí do Brasil recentemente, eles fizeram uma placa dizendo “volte logo, tia”, cheia de cores e com as marcas das mãozinhas deles, e me entregaram no aeroporto. Foi impossível não trazer. Para onde eu for, essas coisas me trazem valor e lembranças.

Ter uma casa e um lar definitivo, para mobiliar e decorar do jeito que eu quiser, não está nos meus planos no momento. Entendi que pertencer é muito mais um sentimento do que um lugar. Eu já desconstruí algumas imposições sociais que me prenderam por muito tempo, e aceitei que a minha realidade é o resultado das minhas escolhas. E voltar para a minha “base” e primeira casa? Eu tentei, e talvez a sensação de “voltar” para lá tenha acabado há muito tempo, mas só caiu a ficha recentemente. Aquela volta à Austrália depois das férias no Vietnã me deu muitos insights. Às vezes a liberdade atrapalha a vontade de criar raízes, pelo menos é assim que funciona para mim agora.
Eu fico repetindo: não dá para ter tudo nesta vida. As vezes temos que abrir mão de algumas coisas a curto prazo para ganhar mais a longo prazo. A liberdade me deu experiências e lições inesquecíveis. A liberdade de mudar de casa e de país me trouxe fluência em inglês e espanhol, mesmo que eu ainda me sinta insegura às vezes. Me trouxe melhores condições de vida. Pude explorar 15 países (para ser sincera, parei de contar). Isso abriu a minha mente, e o enriquecimento cultural é enorme. Mas me custou muito. Momentos especiais com a minha família. Faz mais de 4 anos que não comemoro o Natal com eles. Nem lembro quando foi a última vez. Perdi o primeiro aniversário dos meus sobrinhos. Uma mudança no jeito como vejo as coisas, que me fez não me encaixar. A perda de algumas raízes, porque há coisas que não mudam, e às vezes eu me reconecto com elas em situações aleatórias e em outros países. Mas o que aprendi fez tudo valer a pena.

Reconstruindo
Neste momento, estou reconstruindo a minha “casa”. Estou há 3 semanas em um novo país, começando do zero de novo, mas mantendo os mesmos hábitos. É interessante ver que há coisas dentro de mim que não mudam, não importa onde eu esteja, mental ou fisicamente. Não arrumar a cama é inegociável. Percebi que a simplicidade fica comigo. Será que eu nasci com ela? Mesmo gostando de conforto, e treinando em uma academia superchique, percebi que o básico me deixa feliz: comida simples, não ligar muito para o que eu visto e mil outras preocupações que a vida moderna nos impoe.
Isso torna o processo de reconstruir a minha “casa” mais fácil. Mesmo em um país diferente, em uma língua que eu não falo, em uma cultura diferente, sinto que posso ter a mesma sensação que tive antes na Austrália e em outros lugares onde estive. A minha psicóloga diz que eu sou muito resiliente, e não sei até quanto isso é um elogio, mas, sem dúvida, ser resiliente me ajudou a me sentir menos perdida e frustrada com as últimas mudanças. Espero que a sensação de pertencimento se construa aos poucos, mas entendo que ela vem naturalmente, e não vou forçar.

O que casa significa para você?
O que casa significa para você hoje, mesmo que seja temporário?

Woman seen from behind under an International departures sign at an airport
Woman seen from behind under an International departures sign at an airport